Prólogo

Néia

Dez anos antes

“Essa festa é a sua oportunidade de voltar à razão e desistir dessa viagem absurda, Francinéia.” As malditas palavras que escutei de mamãe, um pouco antes de chegar ao aniversário do meu primo, não deixam que eu aproveite todas as regalias do evento.

— Néia! — Ouço André dizer, animadamente, ao me ver. — Por que essa cara amarrada? É o meu aniversário, aonde foi minha parceira de baladas?

— Ah, não me faça pergunta difícil. — Pego uma taça de champanhe servida pelo garçom e tomo o conteúdo de uma vez só.

— Ânimo, Néia. — Ele faz um gesto engraçado com as mãos. — Sabe que não gosto de te ver assim, tão para baixo.

— Minha mãe disse que eu corrompo as pessoas — retruco, o fazendo rir.

— Não escute o que a tia Fátima diz.

— Acho que devia, olha só você, tão perfeitinho. — Aliso sua camisa branca engomada. — Quando se junta com a prima doida, deixa de ser esse protótipo de macho ideal.

Faço uma careta, talvez essa seja uma das razões para a Juliana, a noiva dele, me detestar, mas eu não ligo para opinião dela sobre mim. André me puxa pela mão, para um abraço apertado.

— Você é louca, mas eu te amo, viu, baixinha?! — Ele beija meus cabelos. — Coloca um sorriso nesse rosto e venha se divertir, hoje é dia de festa.

— Feliz aniversário, desculpa estar assim, tão chata.

— Desde quando me importo com isso? — Ele ri quando nos afastamos do abraço. — Vai me contar o que aconteceu ou vou ter que te embebedar?

— Credo, André! — Dou um tapinha em seu ombro. — Só estou um tanto ansiosa pela viagem, amanhã, enfim vou me livrar dessa família maluca. — Aponto meus pais ao lado de pessoas que claramente não apreciam a presença deles. — Sem ofensas, você e sua mãe são até pacientes demais.

Ele ri, mostrando os dentes perfeitos, meu primo é um gato, confesso que na adolescência tive uma quedinha por André, mas agora já resolvemos isso e ele está noivo daquela dondoca, que se acha a rainha da cocada.

— Então, mais um motivo para esquecer os problemas e curtir a festa. — Ele balança os ombros no ritmo da música dançante, enquanto segura as minhas mãos, fazendo-me acompanhá-lo. — Vamos nos divertir, priminha!

— Posso roubar o meu noivo de você, por um instante? — A voz de Juliana estraga o nosso momento e exibo um sorriso falso para ela, que se empoleira no ombro no noivo, como se precisasse provar alguma coisa aos convidados.

— Fique à vontade, ele é seu mesmo! — Não escondo a antipatia que sinto pela mulher, ela finge não entender e André me olha feio.

— Promete que não vai ficar pensando nos problemas hoje? — Ele se solta da noiva e se aproxima, tocando minha bochecha gentilmente.

— Prometo! Vai lá com essa chatilda — digo baixinho, fazendo-o rir.

— Você é impossível, Néia. — Ele se despede beijando meus cabelos e sai em seguida, com Juliana grudada feito um carrapato.

Esqueço a conversa que tive com meus pais mais cedo, ignoro minha irmã mais velha se pegando com o “noivo” no meio da pista de dança, ela nem faz questão de esconder e o idiota ainda não percebeu que tudo faz parte do plano de fazê-lo se casar o mais breve possível. O pai dele é o vice-prefeito e isso explica essa paixão repentina dela pelo rapaz desengonçado.

Balanço a cabeça para desanuviar os pensamentos, pego uma bebida com o garçom e viro de uma vez, o álcool geralmente me ajuda a esquecer os planos infalíveis dos meus pais de me tornar esposa de algum figurão cheio do dinheiro que possa nos livrar da falência eminente, apesar de fingirem bem, meu pai não passa de um homem fracassado, que pensar ter o rei na barriga.

Joaquim Medeiros vem de uma família de advogados, no entanto, nunca conseguiu passar no teste da ordem, o que faz dele um vassalo mal-humorado do meu tio, Nelson. Toda essa frustração se reflete no modo com trata a todos em casa, o problema é que a minha mãe alimenta os disparates dele, que odeia ser subordinado do irmão mais novo, confesso que é muito divertido ver os dois tentando cair nas graças do pai de André. Ele se diz injustiçado, eu digo que é punição divina.

Deus não deu asas à cobra por algum motivo, não é mesmo?

Caminho até a pista de dança, começando a acompanhar o ritmo da música, como se estivesse sozinha no meu quarto, meu cabelo está uma bagunça, o vestido está colado ao corpo, emplastado de suor. Mamãe deve amaldiçoar até a minha décima geração por não me comportar como a dama que exigiu que eu fosse para, quem sabe, conquistar um bom partido.

Sinto um corpo colar ao meu, quando uma nova música começa, Shakira canta Waka Waka e perco o restinho de juízo, as mãos fortes espalmam minha cintura, sinto a respiração quente em meu pescoço, o perfume amadeirado me invade, enquanto rebolo sem dar importância a quem assiste ao espetáculo protagonizado por mim.

Com os olhos fechados e sentindo as vibrações da música, deslizo as mãos pelos cabelos do desconhecido, sentindo a textura macia, passando pela barba rala e então meu corpo é girado para frente, esbarrando nos músculos esculpidos do tórax. Sinto sua testa encostar na minha e tenho medo de abrir os olhos e descobrir que estou dançando com alguém repulsivo, seus dedos deslizam pelo meu rosto em uma carícia sensual e acabo perdendo um pouco o ritmo, apesar de ele me guiar como se dançássemos juntos, desde sempre.

A música está quase no fim quando tomo coragem, abro os olhos e de repente o ambiente espaçoso se reduz a uma minúscula caixa. Ofego, me perdendo nos olhos castanho-claros penetrantes, o homem tem um porte elegante, os cabelos escuros suados caem sobre a testa, a barba rala emoldura uma boca incrivelmente sexy, os braços musculosos me mantêm firme, já que perdi a capacidade de fazer isso.

Ele sorri quando a música acaba, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e, neste momento, tenho absoluta certeza de que estou completamente apaixonada por esse belíssimo desconhecido. Provavelmente essa é a razão pela qual não protestei quando me perguntou se queria ir a algum lugar com ele e acabei sendo puxada para fora da pista, passando por minha mãe, que não esconde a reprovação em seu olhar pelo que acabei de fazer, enquanto Vagnéia, minha irmã, exibe uma expressão invejosa.

Longe dos olhares curiosos, em um corredor mal iluminado, o corpo musculoso me pressiona contra a parede e não faço nada para impedir quando

sua boca invade a minha, do contrário, o devoro com a mesma fome, os lábios têm um sabor exótico, as línguas dançam em reconhecimento, minhas mãos deslizam pelo peito másculo, sentindo seu coração bater, disparado, enquanto as suas sobem pelas minhas costas, segurando meus cabelos e sinto cada parte de mim rendida a esse homem.

Afastamo-nos quando se torna quase impossível respirar, seus dedos deslizam pelo meu rosto, como se o venerasse, tento recuperar a capacidade de falar e ele fecha os olhos, sorrindo, despretensioso, transformando meu coração em uma bateria de escola de samba.

— Oi — consigo dizer, finalmente.

— Vem sempre aqui? — Ele usa um tom brincalhão, fazendo-me rir.

— Geralmente, sim. — Minha respiração volta ao normal. — As festas da minha família costumam ser bem divertidas.

Encaramo-nos por um momento e, só então, reconheço seu rosto na pouca luz disponível.

— Você é a prima louca? — pergunta, afastando-se a contragosto.

— Provavelmente. — Mordo o lábio inferior e seus olhos se fixam nesse ponto. — E você é o doutor que tirou o sono do meu primo, meses atrás?

Ele levanta as duas mãos em rendição.

— Micael Fontana — o homem se apresenta, enfim.

— Néia Medeiros. — Aperto a mão estendida, ignorando a corrente elétrica que percorre o meu corpo.

Já o vi algumas vezes na companhia de meu primo, entretanto, ainda não havíamos sido apresentados formalmente. Micael me puxa novamente para seus braços, esmagando a minha boca com a sua.

— É um prazer conhecer você, Néia — sussurra, com a voz rouca nos meus lábios, causando-me um arrepio gostoso pelo corpo.

— Está indo embora do país? — Micael pergunta, quando lhe explico que esta festa também é como minha despedida da família.

— Acho que é um termo muito forte. — Faço uma careta.

Encontramos um lugar afastado de toda a agitação dos convidados, depois da nossa explosão no corredor e agora conversamos como as pessoas normalmente fazem, antes de se atracarem em cantos escuros.

— É que do jeito que você fala, parece exatamente isso — ele diz, dando um gole em seu drink, depois devolve o copo para a mesa de centro.

— Digamos que meus pais esperam muito de mim e não estou apta a dar o que me pedem. — Faço um muxoxo e o homem se aproxima um pouco mais de mim, pousando a mão em meu joelho. — Pretendo voltar daqui a alguns anos, talvez eles esqueçam os planos que tem para mim e eu possa finalmente viver em paz.

— Isso significa que essa química que está rolando entre nós vai ter que ficar para depois? — ele diz, brincalhão, e tenho uma sensação estranha no peito.

— Provavelmente. — Dou de ombros, fingindo desinteresse.

— Achei que finalmente havia encontrado a mulher da minha vida.

— Não acredito em amor à primeira vista — disparo.

— Ah, mas eu também não sou adepto a essa ideia. — Sua voz soa muito perto, impedindo-me de pensar direito. — Só acho que precisamos agarrar as oportunidades quando elas surgem e não é todo dia que se esbarra com uma mulher feito você.

Micael desliza o nariz pelo meu pescoço e arfo em resposta, colocando a mão em seu ombro, incentivando-o a continuar.

— O que está fazendo, Micael? — sussurro, com os olhos fechados.

— Nada que você não queira, Néia. — Ele beija meus lábios delicadamente e me entrego rápido demais a toda essa atração que nos envolve.

Conversamos por um bom tempo, ele me conta um pouco sobre a especialização em ortopedia que está fazendo e por que decidiu seguir os passos do pai, tudo flui de forma tão natural, que me assusta. Mamãe sempre disse que me falta a esperteza das mulheres “inteligentes, como ela” e talvez tenha razão.

Evito ao máximo entrar em minha vida pessoal, falo sobre a viagem para os Estados Unidos, onde vou ficar e as altas expectativas em permanecer lá por tempo indeterminado. Por fim, ele me convida para dançar novamente, outra vez chamamos atenção dos convidados. Depois de uma sequência de quatro músicas, estamos exaustos e deixamos a pista sob os aplausos fervorosos das pessoas.

Afastamo-nos por um momento, enquanto busco qualquer coisa para comer e acabo esbarrando com a mamãe.

— Que belo show, Francinéia — ela diz, com um sorriso um tanto sarcástico, porque sabe que odeio esse nome. — Sabia que aquele rapaz é filho do melhor especialista em traumas esportivos do país?

— Sério! Não sabia. — Finjo espanto, lógico que estou a par disso.

André me contou algumas coisas sobre o seu novo amigo, por conta do caso complicado que acabou unindo os dois.

— Faça as coisas direito e talvez nem precise embarcar nessa viagem maluca que inventou, só para desafiar a mim e ao seu pai, com a desculpa de estudar outro idioma — mamãe fala, segurando meu braço. — Fisgue o rapaz, mas não se esqueça de ser a dama decente que te ensinei e não aquela garota vulgar que vi agora há pouco, dançando como uma qualquer.

— Eu. Não. Vou. Fisgar. Ninguém — digo, compassadamente. — Estou aqui para me divertir e nada além disso. Pelo amor de Deus, mamãe, tenho dezenove anos e não sou uma mercadoria!

Vejo-a revirar os olhos e inspirar profundamente, apertando ainda mais o meu braço.

— Não pense que terá o apoio da sua tia Heloisa a vida toda. — Sua voz é um sussurro frio que me faz estremecer. — Um dia, aquela cafona vai se cansar das suas maluquices e deixará de bancar cada uma dessas ideias estapafúrdias que você tem para me chocar.

A mulher solta meu braço e fico sozinha, tento não me importar com o que ela disse, mas é impossível. Sinto o tempo todo como se fosse uma mercadoria exposta, como se meus pais não se importassem com os meus sentimentos e isso é irritante. Pego alguns canapés e procuro por André ou minha tia, quando os encontro, ambos estão ocupados com seus respectivos pares e não é que eu não goste do meu tio Nelson, mas ele é muito parecido com o meu pai em alguns pontos, o que me causa náuseas.

Só meu primo e minha tia não veem o que ele está fazendo, manipulando cada passo do filho, para que siga exatamente pelo caminho que deseja. Já alertei André, mas ele acredita que isso é uma maluquice.

Vago pelo salão, converso com algumas colegas e me lembro de ligar para Bia, porém, não consigo por um motivo bem óbvio que tenho ignorado nos últimos meses, aquele namorado grudento dela me detesta. Deve ter alguma coisa muito errada comigo, não suporto a noiva do meu primo, o namorado da minha melhor amiga não fica por baixo, e me sinto impotente para ajudar esses dois cegos.

— Estava procurando por mim? — A voz de Micael soa em meu ouvido e sinto seu braço me envolver.

— Que convencido! Nem sei quem é você na fila do pão — respondo, o fazendo rir.

— Não se preocupe — ele beija meu pescoço, espalmando a mão na minha barriga —, eu me apresento novamente e, desta vez, não vai esquecer meu nome nem daqui a cinquenta anos.

Viro-me para Micael, enlaçando seu pescoço, no exato momento em que uma música romântica inicia e começamos a bailar lentamente. Não gosto nada de como fico à vontade em sua companhia, como perto dele não me sinto

pressionada a ser outra pessoa e, apesar de ser maravilhoso, não é um bom sinal.

— No que está pensando? — indaga em meu ouvido.

— Que você não deve se apaixonar por mim. — Ele ri, inclinando a cabeça para trás. — Estou falando sério, é perda de tempo e eu vou despedaçar seu coração, acredite!

— É mesmo? — O desgraçado se diverte à minha custa. — Talvez eu queira correr esse risco.

— Vou embora amanhã e… — Micael me gira no ritmo da música interrompendo por um momento a minha fala. — Você é o tipo de cara que todas as garotas se apaixonam, mas eu não sou como elas.

— Ah, uma mulher fora da curva? — Seu rosto exibe um sorrisinho presunçoso. — Adoro seu tipo, Néia, e acho que já é tarde demais. — Seu tom é dramático agora.

— Para, Micael! — Dou-lhe um tapinha no ombro.

— O quê? — O safado leva a mão ao peito, todo cheio de graça. — Não tenho culpa de ter encontrado uma mulher assim, tão irresistível!

— Você é doido — reclamo, quando ele me rouba um beijo, como se não estivéssemos no meio de uma discussão.

— E você é uma diaba — diz, girando-me outra vez.

Uma música eletrônica começa, mudando o nosso ritmo de lento para algo agitado, a química entre nós é inegável, mas o fato de que a minha mãe me mandou fisgá-lo é irritante e se sobrepõe a qualquer coisa sentida por nós dois. Dançamos como antes, ignorando as pessoas em volta, até que sinto uma mão segurar firme o meu braço e me arrastar para longe dele.

— Meu Deus, você não cansa de me passar vergonha, garota? — minha mãe esbraveja, assim que chegamos a um canto vazio. — As pessoas estão comentando sobre o seu comportamento.

— Que se danem! — Tento me soltar dela. — Eu não ligo.

— Pois deveria, acha mesmo que alguém vai querer se casar com uma mulher vulgar feito você? — Ela balança a cabeça, enquanto me olha de cima a baixo. — Aquele rapaz poderia ser a sua chance de se dar bem, mas do jeito que está fazendo, tudo que vai conseguir é uma noite na cama dele e nada além disso.

Encaro-a, furiosa, quase encostando o nariz no seu.

— Eu. Não. Estou. Procurando. Um. Marido — digo, pausadamente. — Quantas vezes vou ter que repetir? Aceite, não pode mandar em mim.

— Veremos, Francinéia. — As palavras soam quase como uma ameaça. — Fique longe daquele rapaz e ao menos finja ser uma moça decente como a sua irmã.

Solto uma gargalhada, porque há pouco tempo a garota que ela está tecendo elogios, estava quase transando em público, no meio da pista.

— Prefiro morrer a ser uma vendida feito Vagnéia. — Sinto sua mão pesada contra o meu rosto e dou alguns passos para trás, ainda sem acreditar no que ela acabou de fazer.

— Vá embora! — ordena, furiosa. — Esta maldita festa acabou para você.

— Graças a Deus! — respondo, levantando as mãos para o alto, fingindo alívio. — Não suporto essa gente chata, você merece que te tratem mal, no fundo é exatamente como eles.

Antes de dar as costas para ela, a vejo estremecer e uma sombra de tristeza passa por seu rosto. Quando me misturo aos convidados, tenho vontade de ficar apenas para contrariá-la, mas estou magoada demais com meus pais e até mesmo com a passividade de minha irmã diante das baboseiras que são impostas a ela.

Caminho a passos lentos até o estacionamento e me sento no meio-fio, colocando a cabeça entre as mãos. Por que eu não posso ter uma mãe que me apoia em minhas decisões ou um pai que não passe a vida perseguindo uma posição que nem lhe cai bem? Limpo uma lágrima que insiste em rolar pelo meu rosto, já havia prometido nunca mais chorar por causa deles.

— Hey, não é legal abandonar seu par durante a dança. — Escondo o rosto entre as mãos ao reconhecer a voz de Micael logo atrás de mim.

Ele só está sendo educado, porque todo mundo viu a minha mãe me arrastar para longe.

— Te procurei por toda parte, um segurança disse que te viu vir para cá — explica, ainda de pé. — O que aconteceu contigo?

— Não foi nada — minto, desejando que o chão se abra sobre meus pés. — Volte para a festa!

— Só se você for comigo. — Espio por entre os dedos e o vejo sentar ao meu lado, descansando os braços sobre os joelhos.

— Não posso voltar. — Tiro as mãos do rosto, encarando o chão, sentindo um nó se formar em minha garganta.

— Por quê? — indaga, curioso.

— Estou envergonhando a minha família — respondo, revirando os olhos e encarando o chão de concreto.

— Que merda! — Ele ri, arrumando uma mecha do meu cabelo e, só então, crio coragem para olhá-lo. — Você chorou?

— Meus olhos só estão suados. — Limpo o nariz com as costas da mão, rindo, sem humor.

— Boa tentativa. — Sinto os olhos dele me queimando e ficamos em silêncio por algum tempo. — Quer ir a algum lugar?

Mordo o lábio inferior, normalmente eu não saio com estranhos que acabei de conhecer, então pondero minhas opções. Ir para casa, esperar que meus pais cheguem e ouvir um novo sermão sobre como as boas moças devem se portar ou ir aonde quer que Micael queira me levar.

Ele entrelaça os dedos nos meus de modo despretensioso.

— Você vai embora amanhã, quer passar sua última noite sozinha, se culpando por todos os problemas da humanidade? — indaga e balanço a cabeça

negativamente. — Uma última aventura antes de partir, algo bom para apagar o que quer que a tenha deixado nesse estado.

— É tentador — digo, encarando-o enfim e dando uma desculpa esfarrapada para mascarar o meu medo —, mas não saio por aí com caras que acabei de conhecer.

— Sou amigo do seu primo, ele é muito certinho e isso deve significar alguma coisa. — Ele arqueia a sobrancelha de um jeito engraçado. — Prometo te devolver inteira, assim que essa tristeza for embora. O que acha?

Fecho os olhos, não estou nenhum pouco a fim de cruzar com meus pais e alguma coisa me faz confiar no rapaz ao meu lado. Que se danem!

— Eu topo — respondo, encarando-o, e vejo seu olhar se iluminar.

Encosto-me ao corrimão de concreto, abro os braços, fecho os olhos inspirando profundamente o cheiro das flores que tem um efeito calmante sobre a bagunça que me encontro. Nunca pensei em um lugar como este no meio da cidade.

— É simplesmente lindo, Micael! — Abro os olhos, encarando o homem ao meu lado que tem as mãos nos bolsos da calça e a jaqueta de couro aberta.

— Achei que gostaria de conhecer. — Ele exibe um sorriso sincero. — Venho aqui quando preciso pensar, sempre funciona.

Estamos em um jardim suspenso no quinto andar de um antigo hospital público, é um local aconchegante, bem-cuidado e com toda a paz que eu precisava para acalmar todo o caos em mim. Micael me trouxe em seu carro, conversamos muito pouco e permiti que ele escolhesse nosso destino, já que eu só queria ir para o mais longe possível daquela festa.

Quando estávamos chegando, ele contou que descobriu o lugar durante a residência médica e o frequentava sempre, o que se confirmou quando o segurança permitiu a nossa entrada pelo elevador de serviço, exibindo um olhar condescendente.

— Traz as garotas aqui para impressioná-las? — especulo, com uma pontada de ciúme me corroendo.

— Só as que são primas dos meus melhores amigos — responde, bem-humorado, se afastando até um banco de madeira e sentando-se.

— Rá, que engraçado. — Mostro os dentes.

— O quê? — Ele dá de ombros. — Sou popular e tenho vários melhores amigos com primas gatas assim, como você.

Ignoro sua provocação, admirando a paisagem à minha volta, lá embaixo as luzes denunciam que a cidade não parou, apesar da sensação que se tem aqui em cima de que o tempo está congelado. Inspiro profundamente, sentindo o corpo relaxar um pouco, antes de me sentar ao lado de Micael.

— Obrigada! — agradeço, sentindo o corpo estremecer com a brisa da noite.

— Está com frio? — indaga e afirmo timidamente.

Ele tira a própria jaqueta, a colocando sobre meus ombros, fazendo com que o seu cheiro invada meus pulmões.

— Desculpe por aquela cena da minha mãe. — Tomo coragem de falar.

— Vai me contar o que ela disse, para te deixar assim? — Micael segura a minha mão entre a sua.

— Não vai querer saber — desconverso.

— Tente. — Seus olhos se prendem aos meus e acabo rendida, lhe contando sobre as razões das brigas entre mim e meus pais.

Micael é um bom ouvinte, durante a conversa ele não me interrompe, permitindo que eu desabafe, enquanto acaricia a minha mão, volta e meia leva a ponta dos meus dedos à boca para beijá-los. Tem alguma coisa nele que inspira confiança e seria capaz de contar qualquer segredo obscuro, hipnotizada pelos olhos castanhos tão ternos.

— Você não precisa fazer o que eles querem, Néia — diz, após um longo momento de silêncio reconfortante. — Agora entendo por que seus olhos

brilhavam tanto quando falava sobre a viagem. É o seu ato de liberdade, a única coisa que não conseguiram te impedir de fazer.

— Eu só quero ser livre, Micael! — sussurro, limpando uma lágrima do rosto.

— Hey, você é livre, baby. — Ele segura meu queixo e nos encaramos, como se nos conhecêssemos desde sempre. — Nunca conheci alguém tão dona de si.

— Mentiroso! — Encosto o ombro no seu.

— Um belo mentiroso, admita. — Seu sorriso faz meu corpo inteiro vibrar e me vejo chegando cada vez mais perto dele. — Eu quero te beijar, embora já tenhamos feito isso mais cedo, agora quero fazer isso por outros motivos.

Seu nariz roça no meu e o vejo fechar os olhos, passando a língua nos próprios lábios.

— Vá em frente — incentivo, embriagada por tudo que vem dele.

Nossos lábios se encontram suavemente, sem a urgência de antes, como se agora finalmente estivéssemos fazendo pelos motivos certos. Seu gosto é a melhor coisa que já provei, um toque leve do álcool e algo só dele, saboreio lentamente, como se quisesse guardar cada detalhe deste momento na memória. A língua invade a minha, explorando cada parte e me desmancho em seus braços, Micael me puxa para seu colo e ficamos assim, perdidos um no outro, como se o mundo exterior não existisse.

Afastamo-nos apenas quando o ar começa a faltar, suas mãos brincam com a barra do meu vestido colado e posso sentir a sua rigidez pressionando a minha bunda. Este seria um bom momento para revelar-lhe um segredo sobre mim.

— O que foi? — pergunta, deslizando o nariz pelo meu pescoço, trazendo um arrepio gostoso pelo corpo.

— Preciso te contar uma coisa — começo, com medo de encará-lo. — Sei que pareço muito descolada, mas…

— Você é, na verdade, uma beata que está indo embora para um convento? — Micael me força a enfrentar seu olhar especulador, apesar do sorriso no canto dos lábios.

— Bem, é quase isso. — Arqueio a sobrancelha e falo de uma vez, desviando o olhar: — Sou virgem!

Ele me solta, devagar, exibindo uma expressão indecifrável colocando-me de volta no banco, passando as mãos pelo rosto e levantando-se talvez um pouco tenso.

— Desculpa, sei que devia ter dito antes — argumento, sem jeito, abraçando o meu próprio corpo, esperando por sua rejeição e encontro coragem para continuar a falar: — Como eu estava dizendo antes, sei que pareço ser descolada, mas no fundo, sou só uma garota boba, que tem medo de se machucar.

— Não há nada de bobo nisso, Néia. — Ele se vira, caminhando até mim, abaixando-se e segurando as minhas mãos. — É uma escolha sua e não deve ter vergonha disso, se você não quer transar comigo, tudo bem.

— Mas você foi tão legal comigo — argumento, com vergonha de olhá-lo.

— Caso não tenha percebido, estamos em um local público. — Micael olha por cima do meu ombro, em direção à porta. — Não estamos desesperados, estamos?

Balanço a cabeça, sem saber como reagir e ele continua:

— Você é perfeita, baby — afirma, tocando meu rosto delicadamente. — Talvez, uma parte de mim, quisesse mesmo isso, mas eu só arrumei uma boa desculpa para passar mais tempo contigo e, paciência, não vou morrer por conta disso.

— Tem certeza de que não vai ficar chateado, caso não aconteça nada entre nós? — Investigo seu rosto, à procura de qualquer sinal que me faça fugir daqui, mas não encontro nenhum.

— Absoluta. — Ele se levanta, sentando-se novamente ao meu lado, me puxando para si e beija meus cabelos.

— Obrigada!

— Não por isso. — Seus dedos deslizam pela minha bochecha em um carinho leve.

Esse é só um gostinho do que vem por aí em Ligeiramente Apaixonados, anote na sua agenda dia 16/11 na Amazon. Lembrando que a capa será revelada nas minhas redes sociais, não deixe de comentar.